Caros amigos, esta semana que passou estive lendo no jornal Le Monde Diplomatique sobre cultura e democracia. O “artigo” faz parte de um encarte chamado Cadernos da América Latina (V), onde filósofos, escritores, sociólogos, antropólogos e estudiosos latino-americanos escrevem sobre temas diversos. O Texto da filósofa brasileira Marilena Chauí chamou-me a atenção; sendo de boa qualidade e esclarecedor, gostaria, então, de compartilhar um pouco do conhecimento com vocês.
O texto tem seus primeiros parágrafos focados em apresentar os conceitos que as criaturas definiram para a cultura, que, diga-se de passagem, se alteraram junto com a história da humanidade e seguindo suas tendências, um exemplo disso, citado pela autora, é o período do Iluminismo (séc 18) em que “a palavra cultura ressurge como sinônimo de civilização.(...) Os iluministas estabeleceram o padrão Europeu capitalista para medir a evolução ou o grau de progresso de uma cultura. As sociedades passaram a ser avaliadas segundo a presença ou a ausência de alguns elementos que são próprios do ocidente capitalista e a ausência desses elementos foi considerado sinal de falta de cultura, todos as sociedades diferentes do padrão europeu são definidas como culturas “primitivas”. Foi justamente esse pensamento que legitimou a colonização e o imperialismo.” Infelizmente, até hoje temos vestígios dessa “forma de julgamento” de tudo que é diferente, do que dita o que é bom ou ruim, ainda aceitamos os padrões europeus e norte-americanos como única forma de cultura propriamente dita, a qual deve-se seguir como padrão, e acabamos contraditoriamente apoiando a marginalização da nossa própria cultura.
Ao longo do texto, também aparece a questão da divisão originária, compreendida pela primeira vez por Maquiavel quando, em O príncipe, afirma: “toda cidade é dividida pelo desejo dos grandes de oprimir e comandar e o desejo do povo de não ser oprimido nem comandado” e reafirmado por Marx “até agora, a história tem sido a história da luta de classes”. A marca da sociedade é a existência da divisão social, isto é, da divisão de classes. Não sendo diferente com a cultura, essa divisão foi transferida como cultura dominante e cultura dominada, opressora e oprimida, de elite ou popular. Assim, convencinou-se chamar de cultura formal, ou seja, a cultura letrada, e a cultura popular, que corre espontaneamente nos veios da sociedade.
Sabemos que o lugar da cultura dominante é bastante claro: é o lugar a partir do qual se legitima o exercício da exploração econômica, da dominação política e da exclusão social. Mas esse lugar também torna mais nítida a cultura popular como aquilo que é elaborado pelas classes populares e, em particular, pela classe trabalhadora, segundo o que se faz no pólo da dominação, ou seja, como repetição ou como contestação, dependendo das condições históricas e das formas de organização populares.
Outro ponto muito relevante a que se refere a autora é o papel da indústria cultural ou cultura de massas. Essa, em primeiro lugar, separa os bens culturais pelo seu suposto valor de mercado: há obras “caras” e “raras”, destinadas aos privilegiados que podem pagar por elas, formando uma elite cultural; e há obras “baratas e “comuns”, destinadas à massa, Assim, em vez de garantir o mesmo direito de todos à totalidade da produção cultural, a industria cultural sobre-determina a divisão social acrescentando-lhe a divisão entre elite “culta” e massa “inculta”. Em segundo, contraditoriamente com o primeiro aspecto, cria a ilusão de que todos têm acesso aos mesmos bens culturais, cada um escolhendo livremente o que deseja. No entanto, basta darmos atenção aos horários dos programas de rádio e televisão ou ao que é vendido nas bancas de jornais e revistas para vermos que as empresas de divulgação cultural já selecionaram de antemão o que cada classe e grupo social pode e deve ouvir, ver ou ler. No caso dos jornais e revistas, por exemplo, a qualidade do papel, letras e imagens, o tipo de manchete e de matéria publicada definem o consumidor e determina o conteúdo daquilo a que cada um terá acesso e o tipo de informação que poderá receber. Se compararmos, numa manhã, cinco ou seis jornais, perceberemos que o mesmo mundo – este no qual todos vivem – transforma-se em cinco ou seis mundos diferentes ou mesmo opostos, pois um mesmo acontecimento recebe cinco ou seis tratamentos diversos, em função do leitor que a empresa jornalística tem interesse (econômico e político) de atingir.
Em terceiro lugar, a industria culutral inventa uma figura chamada “espectador médio”, “ouvinte médio” e “leitor médio”, aos quais são atribuídas certas capacidades mentais “médias”, certos conhecimentos “médios” e certos gostos “médios”. Que significa isso? A indústria cultural vende cultura. Para vendê-la, deve seduzir e agradar o consumidor. Para seduzi-lo e agradá-lo não pode chocá-lo, provoca-lo, fazê-lo pensar, trazer-lhe informações novas que o perturbem, mas deve devolver-lhe, com nova aparência, o que ele já sabe, já viu, já fez. A “média” é o senso-comum cristalizado, que a indústria cultural devolve com cara de coisa nova. (...)
Nossa autora, ainda aborda muitos assuntos relacionados a esse tema, mas por enquanto vamos pensar nesses. Tu já te destes conta do tipo de informação que tu consomes? Já pensastes porque certas expressões são usadas? Já pensaste em como um assunto foi desviado, ocultado ou teve maior ou menor importância do que deveria? E o que te oferecem como cultura, o que tu ouves, lês e até criticas, o que tu ignoras...
Bem brotos, espero que pelo menos se não concordam com o dito defendam suas opiniões, se curtiram o texto e o assunto diferenciado dêem um sinal e terão mais!
Grande upa da Jana que vos fala.